ESSENCIALISMO

A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W Z

Contador de Visitas

Na Internet desde 2005.
mod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_countermod_vvisit_counter
mod_vvisit_counterToday1512
mod_vvisit_counterYesterday8509
mod_vvisit_counterThis week39113
mod_vvisit_counterLast week54186
mod_vvisit_counterThis month175652
mod_vvisit_counterLast month293126
mod_vvisit_counterAll days13747137

We have: 49 guests, 19 bots online
Your IP: 54.82.80.15
 , 
Today: Out 23, 2014
Nº de colaboradores: 178

Estatísticas

Há 1609 verbetes publicados

ESSENCIALISMO

1. [Filosofia] De um ponto de vista filosófico, o essencialismo remete para a crença na existência das coisas em si mesmas, não exigindo qualquer atenção ao contexto em que existem. Uma posição essencialista distingue-se facilmente de uma posição dialéctica: a primeira pressupõe a reflexão de uma coisa em si mesma, a segunda privilegia a reflexão de uma coisa em relação com outras; a primeira confia em que as qualidades de uma coisa  revelam-se a si próprias, a segunda defende que as qualidades de uma coisa devem ser sempre discutidas em confronto com outras qualidades e com outras coisas, procurando-se sempre uma explicação lógica para que uma dada qualidade exista ou predomine. O oposto do essencialismo filosófico é o relativismo. Neste confronto, ambos os termos são utilizados com sentido pejorativo e repelem-se mutuamente. O confronto só ameniza quando se substitui o relativismo pela variante eufemística relacionismo. Em suma, o essencialismo contempla a coisa em si mesma; o relativismo exige a conformidade da coisa com aquilo que compõe o mundo que a circunscreve. Se substituirmos a palavra coisa pela palavra texto, teremos encontrado o significado do essencialismo para a literatura.

 

2. [Poesia] Uma forma particular de platonismo defende primeiro o essencialismo para o caso dos objectos físicos que são cópias imperfeitas das suas formas abstractas — o essencialismo seria assim a existência noumenal ou indecomponível das coisas. Numa outra perspectiva metafísica, advoga-se que alguns objectos têm qualidades que são imutáveis e eternas, jamais ficando sujeitas à erosão do tempo; essas qualidades são fundamentais para a existência dos objectos e estão expressas naquilo que os define. Assim, um enunciado como "o esplendor do Sol" é uma evidência objectiva, é a definição da essência do Sol, pelo que não tem qualquer valor dialéctico. Este tipo de enunciado pode ocorrer em contexto literário, como no exemplo que nos dá Sophia de Mello Breyner Andresen:  "O esplendor poisava solene sobre o mar. E - entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equi­líb­rio do homem com as coisas é medido - quase me cega a per­feição como um sol olhando de frente." ("As grut­as", Livro Sexto, 1962). Este tipo de poesia é essencialista por definição, o que aliás a Poetisa justifica com uma tese igualmente essencialista: "a poesia não explica, implica" (palavras ditas oralmente quando interpelada sobre uma questão crítica). A minha tese vai num sentido contrário: se não compete à poesia explicar-se, é obrigação da crítica explicar o seu sentido. O "implicar" da poesia é apenas uma forma de dizer a sua essencialidade. A diferença entre um enunciado como "o esplendor do Sol" e "O esplendor poisava solene sobre o mar" é o facto da frase de Sophia se tratar de uma evidência subjectiva, aquilo que define o tipo de poesia que gostaria de desmistificar como grande poesia. O essencialismo poético que resulta quer de evidências subjectivas quer de evidências objectivas (para o caso daqueles poetas que nem sequer são capazes de produzir enunciados subjectivos) é, a meu ver, análogo ao essencialismo do tipo wittgensteiniano. Sem entrar na questão delicada de saber o que é grande e o que é pequeno em literatura, questão que talvez nem pertença a nenhuma poética, a diferença entre a grande poesia e a pequena poesia está precisamente no facto de a primeira ter valor dialéctico, isto é, poder ser discutida, e a segunda não o ter (apenas "implica", diz Sophia). Uma poesia anti-essencialista como a de Fernando Pessoa, por exemplo, tem valor dialéctico porque se atreve a definir a própria poesia tanto como se atreve a produzir enunciados subjectivos complexos; por comparação, a crítica de Sophia tem sido fundamentalmente essencialista, não discutindo nunca a natureza das suas essências, mas assumindo invariavelmente as suas "implicações". Ora, em crítica literária o que vale é as explicações e as deduções que arriscamos perante um texto. Uma crítica anti-essencialista será então aquela que não teme definir o objecto que estuda, nunca esquecendo que toda a definição é o princípio de um problema. A diferença entre um poeta essencialista e um poeta anti-essencialista pode ser ilustrada comparando o enunciado subjectivo-essencialista de Sophia com o enunciado subjectivo-anti-essencialista de Fernando Pessoa: "O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes / Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar..."  ("Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia" (8-3-1914), in "Chuva oblíqua", 1915). Em regra, um poeta essencialista trabalha com um número limitado de predicados, não estabelece relações complexas entre as coisas observadas e não escreve nunca nas entrelinhas.

 

3. [Filosofia da linguagem] Para os filósofos da linguagem, o essencialismo serve para descrever as qualidades básicas de um objecto enquanto essas qualidades forem necessárias à sua existência. Este argumento pode levar a acreditar literalmente que um carro só é um carro quando tiver um motor que funciona, porque essa é uma das suas qualidades essenciais, de outra forma (se o motor não funcionar),  perde a qualidade de carro enquanto meio de transporte. O essencialista Wittgenstein garantiu-nos que a filosofia coloca tudo à nossa frente, porém nada explica ou deduz (Investigações Filosóficas, §126). A natureza especulativa da literatura é, por esta via, absolutamente anti-essencialista, porque tudo aquilo que o texto literário nos coloca à nossa frente nos pede explicação e dedução. Só um leitor circunstancial do texto se deterá na contemplação do objecto lido, porque não o pré-ocupa o estudo desse objecto. Para este tipo de leitor, a literatura é um conjunto de essências que não precisam de ser explicadas — apenas fruídas. Ora, a literatura não tem nada de essencial: nenhum texto literário vive em estado de pureza, nenhum texto pode ser um objecto intocável que se explica a si próprio — ou como é que podemos saber que um texto se explica a si próprio se não existir um leitor que tome consciência dessa essencialidade? —, nenhum texto é inexpugnável — ou não havia pura e simplesmente história da literatura. A literatura é uma arte anti-essencialista, porque apela mais à descrição do que à prescrição. Este pressuposto é válido quer para a literatura grosso modo quer para a crítica da literatura. Contudo, nada disto invalida a possibilidade de existirem escritores essencialistas e críticos essencialistas.

 

4. [Pós-estruturalismo] Para certas teorias pós-estruturalistas da literatura, o essencialismo é sobretudo o pecado da limitação do sentido de um texto literário, sobretudo quando se quer fazer acreditar que o sentido está já dito pela intenção do autor do texto. O sentido do texto que é assim determinado diz-se essencial, porque é o único que se admite como verdadeiro na hermenêutica do texto. Uma posição essencialista da literatura impede qualquer tipo de investigação do sentido, porque ele já está pré-determinado. A interpretação aberta de um texto literário está, neste caso, praticamente proibida. Uma parte considerável da crítica pós-estruturalista recusa esta perspectiva. Todo o anti-essencialismo é uma forma de cepticismo, porque duvida da possibilidade de estabilização do sentido. O anti-essencialismo na literatura não é uma forma de niilismo, porque apenas se põe em causa a estabilidade do sentido e não a sua existência. Uma coisa é afirmar que o sentido é indeterminável em qualquer circunstância, como reclamam alguns desconstrucionistas, por exemplo, numa atitude niilista, outra coisa é asseverar que o sentido é indeterminável num único acto de leitura, o que é uma atitude verdadeira e dialecticamente anti-essencialista.

 

5. [Anti-humanismo] Também conhecida por anti-humanista, a crítica anti-essencialista recusa tanto a determinação do sentido como crenças mais gerais (não há uma natureza essencial no homem, não há um ponto de partida na criação metafísica do mundo — não há nenhum Deus criador, portanto). É frequente um humanista ser acusado de essencialismo, quando defende que o indivíduo é a única fonte de verdade possível e válida, quando acredita que o homem é autónomo, auto-suficiente e auto-determinado, por exemplo, Alan Sinfield (Faultines—Cultural Materialism and the Politics of Dissident Reading, 1992), mas, de forma mais assumida,  primeiro em Frederick Mayer (Essentialism, 1952). Mayer já então defendia que o essencialismo era a crença no homem, por isso propunha uma filosofia humanitária: "I believe that the basic task of philosophy is to encourage na awareness of humanity." (1952, p.5). Do ponto de vista religioso, o essencialismo é um anti-fundamentalismo, porque parte do princípio justo de que a religião é uma procura interior e não um terreno sobre o qual detemos o direito exclusivo de propriedade. Mas o que mais agasta certamente um anti-essencialista não é tanto a inocente pretensão humanitária como as tentativas de simplificação da cultura e das instituições sociais que tal filosofia quer levar a cabo, com o objectivo de promover a emancipação intelectual e espiritual do homem. Está ainda hoje por provar que as simplificações ou a redução das coisas complexas a meras ideias elementares por todos entendidas contribuem para o desenvolvimento da humanidade do homem. Para o que nos interessa, o essencialismo humanista arrasta-nos para a crítica da subjectividade em literatura, para as leituras puramente pessoais de um dado texto literário, sem atender, uma vez mais, ao seu contexto histórico, como se o homem fosse uma realidade fora da própria história que constrói. Por outro lado, a simplificação da leitura crítica do texto literário não é, a meu ver, a melhor didáctica para a sua compreensão. Nem a simplificação do próprio texto literário enquanto criação artística será directamente proporcional ao seu valor epistemológico e histórico.

 

6.  [Estudos sobre as mulheres] Para as teorias feministas contemporâneas, o conceito de essencialismo tornou-se uma espécie de eco que todos ouvem, comentam, repelem, mas raramente definem de forma explícita. De forma simplista, o essencialismo feminista diz respeito à determinação da natureza específica da mulher. Nas palavras de Naomi Schor, "essentialism in the specific context of feminism consists in the belief that woman has an essence, that woman can be specified by one or a number of inborn attributes which define across cultures and throughout history her unchanging being and in the absence of which she ceases to be categorized as a woman." ("This Essentialism Which Is Not One", in Naomi Schor e Elizabeth Weed, 1994, p.42). Desde o livro de Simone de Beauvoir O Segundo Sexo (1942???) que esta concepção universalista tem merecido várias críticas. A tese de Beauvoir é a de que não se nasce mulher, porque a mulher faz-se. Esta tese foi motivada por ideiais marxistas que recusam a definição essencialista da mulher, já que se trata de um conceito fabricado culturalmente pelas forças opressoras do patriarcado.

O essencialismo feminista não é, pois, diferente do programa humanista — se esta palavra não representasse tudo aquilo que o essencialismo feminista mais ortodoxo deseja contrariar. Ora, defende-se que este essencialismo feminino é uma visão masculina da mulher, porque a vê como simples realidade biológica, porque reduz a mulher a uma diferença biológica preconceituada: a mulher fica limitada à sua função reprodutora, a mulher tem limitações neurológicas, neurofisiológicas e endócrinas, a mulher não tem a mesma capacidade física do homem, etc. O essencialismo também pode jogar contra a construção de uma verdadeira identidade da mulher quando esta for circunscrita socialmente por razões naturalísticas: a mulher é naturalmente incapaz de certas funções por causa das suas características morfológicas. E quando estas crenças se generalizam, o universalismo torna-se também um caso de essencialismo: as mulheres desde sempre partilharam determinados atributos que as impedem de construir a sua própria identidade.

Outras críticas do essencialismo feminista vão desde a famosa negação de A Mulher, que Lacan demonstrou psicanaliticamente, até à desconstrução de Derrida (Éperon), Irigary e Cixous, que rejeitam a oposição homem/mulher feita dentro dos limites das ilusões metafísicas ocidentais. Todos os anti-essencialismos feministas carregam uma aporia do tipo: "if 'woman' is defined as the being without na essence, where does that leave 'man' "? (Robert Scholes, "Éperon Strings", in Naomi Schor e Elizabeth Weed, 1944, p.127). Quer dizer, qualquer tentativa de negar a existência de uma essência no homem ou na mulher deixa-nos num beco sem saída para o sexo que estiver no lado oposto. O que é que se ganha em afirmar a anti-essencialidade de um indivíduo com o fim de afirmar a sua idiossincrasia? Na retórica complexa dos discursos anti-essencialistas sobre feminismo, parece que quem não tiver uma essência definida ganha a guerra dos sexos; quem estiver  definido essencialmente, terá de suportar todo o tipo de infortúnios culturais. Como bem observa Scholes, uma tomada de posição anti-essencialista por um dos elementos desta oposição binária entre sexos só faz sentido se se tiver em consideração o elemento oposto. E se se quiser que não existam essências em nenhum dos sexos, então o melhor é não utilizar estes termos na discussão sobre estes idealismos sexuais.

 

7. [Estudos pós-coloniais] O termo essencialismo ganhou também espaço nos chamados estudos sobre o pós-colonialismo. Para simplificar os objectivos de um povo colonizador, fala-se então numa única ideia essencial do que significa ser africano, indiano ou árabe. Um movimento de libertação de um povo colonizado dirá precisamente o contrário: é o colonizador que pode ser reduzido a um essência fundamental. Salman Rushdie define o essencialismo como "the respectable child of old-fashioned exoticism. It demands that sources, forms, style, language and symbol all derive from a supposedly homogeneous and unbroken tradition. Or else" ("Commonwealth Literature Does Not Exist", in Imaginary Homelands: Essays and Criticism (1981-1991), 1991, p.67).

Bibliografia

Angela P. Harris: "Race and Essentialism in Feminist Legal Theory", in Jacqueline St. Joan e Annette Bennington McElhiney (eds.): Beyond Portia: Women, Law, and Literature in the United States (1997); Barbara Godard: "Essentialism? A Problem in Discourse", Tessera (Canadá), 10 (1991); Diana Fuss: Essentially Speaking (1990); Garth L. Hallet: Essentialism: A Wittgensteinian Critique (1991); Frederick Mayer: Essentialism (1952); Katherine Binhammer: "Metaphor of Metonymy? The Question of Essentialism in Cixous", Tessera, 10 (1991); Naomi Schor e Elizabeth Weed (eds.): The Essential Difference (1994); Nick Braisby, Bradley Franks e James Hampton: "Essentialism, Word Use, and Concepts", Cognition: International Journal of Cognitive Science, 59, 3 (1996); R. Peet: "Debates and Reports: Some Critical Questions for Anti-Essentialism", Antipode, vol.24, 2 (1992);  Richard Rorty: Contingency, Irony, and Solidarity (1989); Rosaria Champagne: "Feminism, Essentialism, and Historical Context", Women's Studies: An Interdisciplinary Journal, 25, 1 (1995); Teresa de Lauretis: "Upping the Anti (sic) in Feminist Theory", in  Robyn R. Warhol e Diane Price Herndl (eds.): Feminisms: An Anthology of Literary Theory and Criticism (1997).

comentários (1)
porPedro Henrique Sousa da Silva, Novembro 23, 2010
Nos últimos anos, estudiosos da Linguística Cognitiva e do Sociocognitivismo vêm se empenhando em estudos ligados ao "Sentido" e, a partir desse empenho, cunhou-se o termo Referenciação para se remetê-lo ao caráter dinâmico do processo de construção do sentido. O reportado termo defende a idéia de ação sobre a referência, e não a de referência estática do sentido(MUSSALIM E BENTES, 2004). Para os Linguistas da Cognição e aos Sociocognitivistas,a referência, ou seja, o sentido, não goza de estabilidade. Na verdade, ele decorre de todo um arcabouço de ações e processos sociocognitivos, que, por sua vez, podem produzir construções de sentido bem como fomentar suas diversas variações.
Pode-se postular, a partir dos estudos da Referenciação, que, tanto a estabilidade do sentido quanto a sua essência não passam de ilusões retóricas construídas a partir de "contratos" sociocognitivos em dadas comunidades.
Sentido é processo, é construção, é negociação, é "contrato social".