MÉTODO

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MÉTODO

O termo comporta duas perspectivas para sua caracterização. Uma delas limita‑se a esclarecer‑lhe a origem grega; menos do que defini‑lo, resulta numa concepção por assim dizer poético‑etimológica, segunda a qual método quer dizer caminho — odos — para um fim (ou para além) — meta. A outra perspectiva opta por uma definição propriamente dita: método é o conjunto de princípios e procedimentos orientadores de uma pesquisa científica.

Não obstante o apelo metafórico, a primeira caracterização nos parece pouco indicada para reflexão mais conseqüente. Atenhamo‑nos, pois, à segunda, que, de saída, favorece um desenvolvimento que vincula a idéia de método à de ciência.

Com efeito, entre os diversos traços atribuíveis à ciência — simultânea atenção e transcendência em relação aos fatos; analitismo; especialização; sistematicidade; etc. —, figura o seu caráter metódico. Desse modo, uma pesquisa científica, longe de processar‑se por improvisos, sem planejamento ou rumos, consiste numa busca metodicamente orientada, o que supõe as seguintes providências correlativas: delimitação tanto quanto possível precisa do problema a investigar; alinhamento de princípios, conceitos e técnicas aptos a conduzirem a uma solução ou a um equacionamento do problema proposto. Para atingir‑se esse duplo objetivo — circunscrição da pergunta e proposição de respostas —, o método, conforme sua representação pela ciência moderna, implica a conjugação de certos elementos, também praticamente identificáveis com etapas do seu processo: observação rigorosa; experimentos; emprego de instrumentos de precisão; quantificação; dedução matemática

Essa caracterização de método é em geral satisfatória no âmbito das ciências da natureza, que favorecem a concepção monista segundo a qual existe apenas um método científico, independente das diferenças entre as disciplinas. No campo das ciências humanas, contudo, onde somente casos bastante excepcionais poderiam comportar a presença plena dos elementos do método referidos, prevalecem condições para postular‑se a idéia oposta. Haveria, então, um pluralismo metodológico (servimo‑nos aqui da distinção "ciência monista / ciência pluralista", encontrada em Bunge, 1976, p. 47), uma vez que o método se caracterizaria não por uma seqüência de operações invariáveis — observação rigorosa; experimentos; emprego de instrumentos de precisão; quantificação; dedução matemática —, mas por certo interesse de conhecimento necessariamente variável; assim, no 1imite, como cada disciplina comporta um centro de interesse específico, haveria tantos métodos quantas são as disciplinas.

Um exemplo talvez nos auxilie a compreender melhor a questão. Consideremos o psiquismo como região da realidade a ser cientificamente explorada. Podemos concebê‑lo como um campo de observação passível de ser trabalhado de acordo com diversos pontos de vista ou centros de interesse, consubstanciáveis em métodos distintos e correspondentes a cada ponto de vista: o método fisiológico, o neurológico, o psicológico, o psicanalítico, etc. Assim, os pontos de vista ou centros de interesse consubstanciados nos métodos respectivos recortam, no campo de observação em causa, aqueles aspectos pertinentes à sua investigação própria; nesse sentido, o objeto de uma disciplina não é o conjunto de dados que formam o seu campo, mas uma construção conceitual, elaborada pela intervenção do método. Dizendo de outro modo, o método constrói o objeto próprio à disciplina, estabelecendo‑se desse modo elos de implicação recíproca que formam a seguinte cadeia: método Û objeto Û disciplina. Sem outro recurso senão a circularidade, acrescentemos pois que cada um desses métodos caracteriza certa disciplina e seu objeto respectivo: o método fisiológico, a fisiologia; o neurológico, a neurologia; e assim por diante.

Assinale-se, como última observação genérica, que a idéia de método ora delineada — método como seqüência de operações empíricas e racionais nitidamente distintas e rigidamente concatenadas — decorre de matriz conceitual que combina cartesianismo e experimentalismo. Uma epistemologia mais avançada, porém — que as expressões ciências do caos ou ciências da complexidade procuram compreender — implica uma concepção interessada em compatibilizar, no processo de construção da ciência, aspectos contraditórios, como previsibilidade e acaso, observação e imaginação, linearidade e simultaneísmo, do que resulta um entendimento de método resistente à fórmula de uma definição.

Tendo até aqui discorrido sobre o conceito de método em geral, convém agora estreitar o foco nos estudos literários.

Comecemos por dizer que a questão do método só se coloca no momento em que estes, afastando‑se das antigas disciplinas clássicas dos discursos — gramática, retórica e poética —, procuram, no século XIX, uma aproximação com as ciências. A história —concebida como ciência positiva — se tornará então referência metodológica para os estudos literários, juntamente com a psicologia, a sociologia e a filologia. Mais para o fim do século, no entanto, um movimento anticientificista, conhecido como impressionismo crítico, reagirá contra o empenho de objetividade configurado pela aplicação dos métodos histórico, psicológico, sociológico e filológico aos estudos literários, defendendo o caráter subjetivo e particular — e, pois, refratário ao objetivismo e à generalidade inerentes aos métodos — das apreciações da literatura.

No século XX, a controvérsia metodológica prossegue. Sua expressão mais nítida encontra‑se na distinção clássica proposta por René Wellek e Austin Warren (Teoria da literatura, 1942), entre o que chamam "métodos extrínsecos" (grosso modo, aqueles de extração oitocentista, já mencionados) e um "estudo intrínseco da literatura", que afinal constituiria o método propriamente literário de investigar‑se a literatura.

A demanda por um método próprio viria assim a constituir‑se talvez na principal característica dos estudos literários até em torno dos anos 70. Na verdade, porém, o concurso de outros métodos — impróprios? — prevaleceria, às vezes até como atalho para uma especialização metodológica que se pretendia atingir mediante progressiva adequação e refinamento de princípios e conceitos. Foi o caso especialmente da adaptação do método lingüístico ao objeto literário, baseada no pressuposto de que, sendo a literatura um fenômeno da linguagem, deveria a lingüística, ciência da linguagem, fornecer aos estudos literários o aparato conceitual apropriado de que estes se revelavam carentes. O mesmo pressuposto de certo parentesco ou analogia de objetos conduziu ainda a aproximações com a antropologia e a psicanálise, através do reconhecimento de afinidades entre as linguagens da literatura, do mito e do sonho.

Tendo em vista o exposto, os estudos literários podem ser figurados como uma área particularmente fértil para a proliferação de métodos, o que suscita divergentes avaliações.

Um juízo mais tradicional assinala o caráter positivo dessa circunstância: sendo a literatura a linguagem geral do humano, infensa à estreiteza de interesse característica das diversas ciências particulares, seu estudo coincide com o amplo horizonte das humanidades, movimentando assim conhecimentos das mais variadas procedências — filosóficos, filológicos, lingüísticos, históricos, geográficos, mitológicos, psicológicos, etc., etc. — , revelando‑se portanto incompatível com a eleição de um método específico e unificador.

Uma avaliação negativa, contudo, tende a impugnar como ecletismo e superficialidade tamanha ambição humanística de abrangência. Defende, então, a necessidade de priorização de um método, que reduza as múltiplas implicações da literatura — amorfas e incognoscíveis, de tão heterogêneas — à nitidez de um princípio único. Assim, o objeto literário torna‑se apreensível por certo método eleito: sociológico, lingüístico, psicanalítico, antropológico, etc.

A ótica reducionista, por sua vez, encontra adeptos e adversários. Os primeiros vêem no reducionismo um procedimento perfeitamente legítimo: por ele se evitariam as leviandades epistemológicas típicas do humanismo eclético, que, no seu interesse por tudo, nada aprofundaria, favorecendo com isso uma posição diletante em face da literatura; ele seria ainda característico das ciências humanas, à medida que "... o conjunto [delas] constitui um sistema. Quando uma [...] começa a movimentar‑se, o movimento não demora a arrastar as demais" (Georges Duby. A história continua. Rio de Janeiro: Zahar / Ed. da UFRJ, 1992.); finalmente, o ato de reduzir, sem implicar o efeito negativo de limitar, consistiria em traduzir o desconhecido em termos conhecidos (assim, por exemplo, se não sei o que é o literário, posso reduzi‑lo aos termos do sociológico, que já conheço).

Os adversários do reducionismo, no entanto, insistem nos seus efeitos de limitação. Para neutralizá‑los, uma atitude recente — supomos que melhor sistematizada a partir dos anos 80 — , rejeitando embora qualquer acusação de retorno ao ecletismo humanístico, propõe o que se vem chamando interdisciplinaridade, ou ainda, em versões mais atualizadas, multi‑ e transdisciplinaridade. Assim, ao contrário do reducionismo, que entende os estudos literários como arena de métodos em combate, até que finalmente possa prevalecer o mais adequado — ou o menos inadequado — , essa atitude os concebe como área particularmente apta, por sua complexidade e abertura, para experiências de colaboração entre métodos e disciplinas variadas.

Na atualidade, acreditamos que a representação mais notória desse pensamento encontra‑se nos assim chamados estudos culturais. Ainda que por esta expressão, originária do mundo universitário anglo‑norte‑americano, em princípio se designe certo ânimo contestador de valores tidos por hegemônicos, mediante uma espécie de programa revisionista que combina relativismo cultural com absolutismo ético, não parece difícil colocá-la em referência à questão ora em apreço. É que os estudos culturais, mesmo sem situar o problema nestes termos, projetam no campo do método uma análogo de suas convicções formuladas quanto à cultura e à política: apresentam-se como alternativa inter‑, multi‑ ou transdisciplinar, em relação ao empenho de pureza metodológica e ultra‑especialização exclusivista que caracterizaria os estudos literários.

Bibliografia

Bunge, Mario. La investigación cientifica. Barcelona: Ariel, 1976; ‑‑‑‑‑‑. La ciencia. Buenos Aires: Siglo Veinte, 1977; Coelho, Eduardo Prado. Os universos da crítica. Lisboa: Edições 70, 1982; Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1996. V. 33 (Explicação); Ferrater Mora, José. Método. In: ‑‑‑. Diccionario de filosofía. Buenos Aires: Sudamericana, 1971. V. 2, p. 197‑200; Feyeraband, Paul. Contra o método; esboço de uma teoria anárquica da teoria do conhecimento. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977; Granger, G. G. Método. In: Enciclopédia Einaudi. Lisboa: Imprensa Nacional / Casa da Moeda, 1992. V. 21; Gumbrecht, Hans Ulrich. Sobre os interesses cognitivos, terminologia básica e métodos de uma ciência da literatura fundada na teoria da ação. In: Lima, Luiz Costa, sel., coord. e trad. A literatura e o leitor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. p. 189‑211; Imbert, Enrique Anderson. Métodos de crítica literaria. Madrid: Revista de Occidente, 1969; Morin, Edgar. Método. Lisboa: Europa-América; Souza, Roberto Acízelo de. Formação da teoria da literatura. Rio de Janeiro: Ao Livro Técnico; Niterói: EDUFF, 1987; ------. Teoria da literatura. São Paulo: Ática, 1996; Wellek, René & Warren, Austin. Teoria da literatura. Lisboa: Europa‑América, 1962.