LINGUAGEM

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LINGUAGEM

Em Crátilo, de Platão (428-348 a.C), texto fundador, na filosofia ocidental, da reflexão sobre a linguagem, lemos este fragmento fulcral: “Socrate: Tu sais que le discours exprime tout (pan) et que sans cesse il fait circuler et meut tout, et qu’il est doublé, à la fois vrai et faux”. (Platon, 1967, p. 428). Nesse diálogo, três temas se entrecruzam o tempo todo: a justeza dos nomes (orthotes), a conveniência ou propriedade (euprepeia, prosekon) e a ignorância do povo (plethos)  quanto à Verdade (episteme). “(...) A imperfeição da linguagem, tomada como mimese, ameaça as certezas do Saber, ao mesmo tempo que, vistos como mera conveniência, os nomes condenam a linguagem  a bater-se, sem cessar e sem saída, contra o excesso e a ambigüidade do não-idêntico, ou seja, o duplo da linguagem, que não representa a essência do Real” (MUCCI, 2005, p. 36 ).   Por seu turno, Roland Barthes (1915-1980), declara, no fascinante mosaico enciclopédico que se intitula  Fragmentos de um discurso amoroso: “Os signos não são provas, pois qualquer um pode produzir signos falsos ou ambíguos. Volta-se, então, paradoxalmente, à onipotência da linguagem: já que nada assegura a linguagem, sustentarei a linguagem pela última e única certeza: não acreditarei mais na interpretação” (p. 179). Note-se que, diferentemente do filósofo grego, o semiólogo francês não fala de discurso verdadeiro ou falso, mas falso ou ambíguo, apontando, destarte, a impotência da linguagem: o paradoxal  sintagma  “onipotência da linguagem” trapaceia, então,  a aporia em que consiste a reflexão sobre a linguagem, flexão diante do abissal mistério dos signos.

            Falar de linguagem remete, imediatamente, a  Ferdinand de Saussure (1857-1913),  autor de um livro que não escreveu (será que os grandes fundadores jamais terão escrito:  Buda, Sócrates, Jesus...?), mas editado, na verdade, postumamente, em 1916, a partir de anotações de aulas do aluno Albert Riedlinger, pelos lingüistas  Charles Bally e Albert Sechehaye. No Curso de lingüística geral, lemos a lição de Saussure, que abre uma porta de dois batentes: “Mas o que é a língua? Para nós, ela  não se confunde com a linguagem; é somente uma parte determinada, essencial dela, indubitavelmente. É, ao mesmo tempo, um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. Tomada em seu todo, a linguagem é multiforme e heteróclita; a cavaleiro de diferentes domínios, ao mesmo tempo física, fisiológica e psíquica, ela pertence além disso ao domínio individual e ao domínio social; não se deixa classificar em nenhuma categoria de fatos humanos, pois não se sabe como inferir sua unidade. A língua, ao contrário, é um todo por si e um princípio de classificação. Desde que lhe demos o primeiro lugar entre os fatos da linguagem, introduzimos uma ordem natural num conjunto que não se presta a nenhuma classificação” (p. 17). Do alto de sua sapiência, também política, Noam Chomsky pergunta-se perplexo: “Qual a função da linguagem? Diz-se freqüentemente que a função da linguagem é a comunicação, e que o ‘objectivo essencial’ é possibilitar a comunicação entre as pessoas. Acrescente-se ainda que só se consegue compreender a natureza da linguagem se se atender a esta finalidade essencial. Não é fácil avaliar esta consideração. O que significa dizer que a linguagem tem um ‘objectivo essencial’ ?” (In ENCICLOPÉDIA EINAUDI, v. 2, p. 19).   Há que se notar, primeiramente, que o lingüista genebrino refere-se à linguagem verbal, seja ela oral ou escrita. Já  Ducrot e Todorov consideram que “deve-se buscar alhures a especificidade da linguagem verbal. Inicialmente, esta linguagem – a linguagem – caracteriza-se por seu aspecto sistemático. Não se pode falar de linguagem se se dispuser apenas de um signo isolado. É verdade que a própria existência de um signo isolado é mais que problemática: de início, o signo se opõe necessariamente à sua ausência; por outro lado, nós o colocamos sempre em relação (mesmo que não seja de modo constitutivo) com outros signos análogos: a cruz gamada com a estrela, uma bandeira com outra etc. Contudo, normalmente se entende por linguagem um sistema complexo. Em segundo lugar, a linguagem verbal pressupõe a existência da significação (...). É, portanto, uma analogia bastante leve que nos permite falar de ‘linguagem’ no caso de outro sistema simbólico. Em terceiro lugar, a linguagem verbal é a única que comporta determinadas propriedades específicas, a saber: a) pode-se utilizá-la para falar das próprias palavras que a constituem e, com muito mais razão, de outros sistemas de signos; b) pode-se produzir frases que recusem tanto a denotação quanto a representação: por exemplo, mentiras, perífrases, repetição de frases anteriores; c) pode-se utilizar as palavras num sentido que não é conhecido previamente pela comunidade lingüística, fazendo-se compreender graças ao contexto (é, por exemplo, o emprego das metáforas originais).” (p. 104). Um aforismo de Émile Benveniste, inscrito no prefácio a Problèmes de linguistique générale, por nós traduzido, reafirma a condição do ser humano  como ser de linguagem : “Os que noutros domínios descobrem a importância da linguagem, verão assim como aborda um lingüista algumas das questões que foram levados a pôr-se e talvez se apercebam de que a configuração da linguagem determina todos os sistemas semióticos”.

De acordo com Barthes, em sua magnífica Aula,  falar não será mais, como o quer a mais ortodoxa das lingüísticas, comunicar : “Falar, e com maior razão discorrer, não é comunicar, como se repete com demasiada freqüência, é sujeitar: toda língua é uma reição generalizada” (p. 13).[

 Na “geléia geral” da cultura brasileira, por exemplo, há o fenômeno do dialeto calunga, que os escravos criaram em Minas Gerais, mais especificamente na região do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba, como dá conta, em sua pesquisa,  Kárita Aparecida de Paula Borg “a presença do Calunga nos diferentes municípios do Triângulo Mineiro está relacionada  à mineração no início do século 18, época na qual surgiu o escravo-faiscador, que garimpava de modo rústico. O dialeto servia , então, como um veículo secreto para transmitir notícias sobre a vida cotidiana – fugas, nascimentos, mortes, etc. Era terminantemente proibido ensiná-lo aos feitores e capatazes, pois este ‘mistério’ era considerado uma forma de resistência dos escravos”. Falava-se, então, para esconder ou, melhor dizendo, para não comunicar, para tapear, para trapacear. Cada palavra, cada signo, cada gesto desenhava um código que abriria, sofregamente,  portas para a liberdade.

 Lida rapidamente e repetida mecanicamente, quase como um clichê, a definição saussuriana que circunscreve a linguagem como sistema de comunicação camufla, portanto,  uma questão fundamental com relação ao corpus definido, na medida em que parece conferir à linguagem uma função simplesmente pragmática, mecanicista, redutora, enfim, da potencialidade infinita  desse especial sistema de signos. Com efeito, para além de servir de instrumento, ponte, mediação para a comunicação, a linguagem é ela mesma um sistema de signos, um sistema de signos estéticos e, no caso da linguagem verbal, um sistema de signos literários. Falada ou escrita, a linguagem articula uma rede de signos, enformados por uma estesia, que provocará, no ouvinte e no leitor, uma semiose, também de cunho estético. Cada palavra, como postulava Paul Valéry (1871-1945), já  é, em si mesma, uma obra de arte; portanto, será a linguagem, considerada em sua natureza estética,  uma obra-prima.

Se, para Jacques Lacan (1901-1981), a verdade é da ordem da ficção, « L'inconscient est structuré comme un langage », o que significa que a linguagem comanda e organiza tanto nossa relação com o mundo como a relação conosco mesmos. Destarte, a teoria lacaniana estrutura-se em torno do desejo e da linguagem, dado  que considera ser o desejo a essência do ser humano, que, pela linguagem, tem acesso ao inconsciente. L’être humain designa-se, em termos de Lacan, parlêtre, o que constui um belo jogo de signos,  incrustrando  a preposição « par » (« por », indicando mediação), o verbo « être » (« ser »), o verbo (transitivo, trasitivo-relativo, relativo, pronominal : por conseguinte, um verbo de múltiplas regências) « parler » (« falar »)  e « lettre » (a letra). Eis, pois,  nesse seminal neologismo, a versão lacaniana do paradgmático homo loquens.  A teoria lacaninana elabora a metonímia, a tradução, a reversão de  « parlant » para « parlêtre », configurando, assim, num só signo, uma constelação de signos.  O fato de aprender a linguagem corta-nos, de certo modo,  do mundo : assim nasce o Real, que não pode ser nomeado ; a linguagem, em que nascemos, ou, com que nascemos, contém valores, organiza o mundo em que haveremos de viver : essa dimensão de organização e distribuição de valores é designada  « simbólica » por Lacan. Já o imaginário constitui,  no jargão lacaninano, a maneira como o sujeito (sujeito à linguagem e sujeito da linguagem) se percebe pela interpretação dos outros e da linguagem em que se encontra. Finca-se de tal modo na linguagem a teoria de Lacan,  que, por exemplo, a criança, no estágio do espelho, que é o momento em que ela se distingue de sua representação, passa, também, a perceber o signo, que está lá por outra coisa, que designa essa coisa, a qual, no entanto, não é  (p. 449-495).

 Preferindo dizer « texto », ao invés de « literatura », Barthes, amigo de Lacan e jamais por ele analisado,  enuncia, em S/Z, instigante leitura semiológica da novela Sarrasine (1830 ), de Balzac (1799-1850) : « Neste texto ideal, as redes são múltíplas e se entrelaçam, sem que nenhuma possa dominar as outras ; esse texto é uma galáxia de significantes, não uma estrutura de significados ; não tem início ; é reversível ; nele penetramos por diversas entradas, sem que nenhum possa ser considerada principal ; os códigos que mobiliza perfilam-se a perder de vista, eles não são dedutíveis (o sentido, nesse texto, nunca é submetido a um princípio de decisão, e sim por lance de dados) ; os sistemas de sentido podem apoderar-se desse texto absolutamente plural, mas seu número nunca é limitado, sua medida é o infinito da linguagem » (p. 39-40). « Lexia » alongada, esse enunciado barthesiano gira, apontando o horizonte  infinito da linguagem.

 Do fundo quase infinito do Pantanal Matogrossense, o poeta brasileiro Manoel de Barros,  cuja linguagem irmana-se ao idioma do sertão mineiro, genialmente recriado por Guimarães Rosa (1908-1967), vê, bakhtinianamente, em  “Enunciado”,  a linguagem como carnaval: “agora não posso mais priscar na areia quente/ que nem os lambaris que escaparam do anzol./ Não posso mais correr nas chuvas na moda que os bezerros correm. / Nem posso mais dar saltos-mortais nos ventos./ Agora/ Eu passo as minhas horas a brincar com palavras./ Brinco de carnaval./ Hoje amarrei no rosto das palavras minha máscara./ Faço o que posso” (p. 57).

No imbroglio  a que uma reflexão sobre a linguagem necessariamente conduz todo pesquisador, lembro-me de uma orientação, ou melhor, uma ordem, que os padres lazaristas, de Mariana-MG, nos davam, nos anos 50: “Ite ad Joseph”, enunciado traduzido, literalmente, como “Ide a José”, e traduzido, literariamente, por um circunlóquio: em qualquer situação de dificuldade, recorrei a São José, modelo de trabalhador,  esposo, pai, porque suas bênçãos não vos  hão-de  faltar. Mutatis mutandis (eis outra expressão iterativa nos meus tempos de seminarista marianense), recupero mais uma  reminiscência afetiva e intelectual e  socorro-me de Vítor Manuel Aguiar e Silva, em seu (e de todos nós que estudamos, o tempo todo,  e amamos, sobre todas as coisas e artes,  a Literatura) Teoria da Literatura, que  traz luz meridiana também sobre a questão da comunicação literária, vale dizer, da linguagem enquanto sistema de signos literários; colocando o dedo na ferida (narcísea) da querela sobre a linguagem, o egrégio pensador luso afirma: “(...) Não é possível conceituar a comunicação literária como um subsistema do sistema da comunicação linguística. Se o texto literário representa uma mensagem possibilitada e regulada por um sistema semiótico que se constitui necessariamente a partir do sistema linguístico, mas que comporta mecanismos sémico-formais e pragmáticos inexistentes neste, então a comunicação literária deverá ser concebida como um supra-sistema do sistema da comunicação linguística, pois que só se realiza se funcionarem alguns mecanismos essenciais da comunicação linguística, visto que a sua realização não implica a realização de todos os factores canónicos da  comunicação linguística  e porque na sua realização interactuam específicos elementos sistêmicos” (p. 197).

Em seu prefácio ao livro Ficções (1977), de Hilda Hilst (1930-2004),  poeta paulista, Leo Gilson Ribeiro pondera: “A palavra para ela  (Hilda Hilst) nada tem de ‘literário’, de bel-letrismo, nem de um real aparente. A linguagem tem um papel encantatório, de aplacar a fúria de conhecer, de romper os limites do apreensível pelo humano para chafurdar no Absoluto. A linguagem é o Tao, o caminho, um labirinto salvático, a linguagem é um ritual propiciatório, uma alquimia de instrumentos verbais para chegar à gnose” (p. IX).

Um poema de Jorge Luis Borges (1899-1986) – Una brújula – epitoma, humana e divinamente, a epistemologia da linguagem, essa bússola imponderável:

Todas las cosas son palabras del Idioma en que Alguien o Algo, noche y día, Escribe esa infinita algarabía Que es la historia del mundo.En su tropel Pasan Cartago y Roma, yo, tú, él, Mi vida que no entiendo, esta agonía De ser enigma, azar, criptografía Y toda la discordia de Babel. Detrás del nombre hay lo que no se nombra; Hoy he sentido gravitar su sombra En esta aguja azul, lúcida y leve, Que hacia el confín de un mar tiende su empeño, Con algo de reloj visto en un sueño Y algo de ave dormida que se mueve.

(p. 875).

 

Por sua  vez , o poeta carioca contemporâneo  Renato Manfredini Júnior (1960 -1996), mais conhecido como Renato Russo, reorganiza, num só poema – “Monte Castelo” -, três discursos de três eras diferentes: o Novo Testamento (“Carta aos Coríntios”) , a Lírica camoniana (“Soneto 11”)  e sua própria pós-modernidade; falar a língua significa, então,  conjugar a potência do código da língua ao ato (falho? fálico?) da linguagem:

 

Ainda que eu falasse a língua dos homens.  E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria. É só o amor, é isso o amor.  Que conhece o que é verdade.  O amor é bom, não quer o mal.  Não sente inveja ou se envaidece. O amor é o fogo que arde sem se ver.  É ferida que dói e não se sente.  É um contentamento descontente.  É dor que desatina sem doer. Ainda que eu falasse a língua dos homens.  E falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria. É um não querer mais que bem querer. É solitário andar por entre a gente.  É um não contentar-se de contente.  É cuidar que se ganha em se perder. É um estar-se preso por vontade.  É servir a quem vence, o vencedor;  É um ter com quem nos mata a lealdade.  Tão contrario a si é o mesmo amor. Estou acordado e todos dormem todos dormem todos dormem.  Agora vejo em parte. Mas então veremos face a face. É só o amor, é só o amor.  Que conhece o que é verdade. Ainda que eu falasse a língua dos homens.  E falasse a língua do anjos, sem amor eu nada seria.

 

Será, então,  o amor à linguagem a verdadeira linguagem. A canção de Renato Russo, “autor” do Novo Testamento e  da sonetística camonina, líder do influente grupo brasiliense  “Legião Urbana”, remete, hic et nunc,  em minha recepção, ao conto “Teatro de sombras”, do alemão Michael Ende (1929-1995), cujo parágrafo final assim se inscreve: “E, desde então, elas (as sombras) representam para os anjos a história dos seres humanos, na grande linguagem dos poetas. Os anjos entendem essa linguagem e, assim, ficam sabendo como é terrível e maravilhoso, como é triste e engraçado ser gente e viver na terra”. A Poesia é a linguagem, dos anjos e dos homens. Segundo Gérard Genette, “a literatura é uma retórica do silêncio”. Serve de epílogo ao Tractatus logico-philosophicus (1921), de  Ludwig Wittgenstein ( 1899-1951), talvez o último filósofo ocidental,   a propalada proposição 7, que enuncia: “Daquilo que não podemos falar temos que calar”.  Também o silêncio será o epílogo, em aberto, de um verbete sobre a linguagem. 

Bibliografia

AGUIAR E SILVA, Vítor Manuel de. Teoria da Literatura. 7.ed. (1986). BARROS, Manoel de. Poemas rupestres (2006). BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso (1985). BARTHES, Roland. Aula (1980). BARTHES, Roland. S/Z. Trad. Lea Novaes. (1992). BENVENISTE, Emile. Problèmes de linguistique générale . (1966). BORG, Kárita Aparecida de Paula. “Falar para esconder”. In: Discutindo língua portuguesa. Ano 2, no. 14, p. 56-61. BORGES, Jorge Luis. Obras completas (1974). DUCROT, Oswald e TODOROV, Tzvetan. Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem (1988). ENCICLOPÉDIA EINAUDI, v. 2 (1984). ENDE, Michael. O teatro de sombras de Ofélia. In: A escola de magia e outras histórias (1997). LACAN, Jacques. Autres écrits (2001). LACAN, Jacques. Autres ecrits (2001). MUCCI, Latuf Isaias. O Crátilo, de Platão e o jogo da linguagem. In: MALUF, Ued (org.). Reversibilidades não reflexives. Um rompimento nas barreiras da ordem (2005), p. 34-49. PLATON. Cratyle (1967). RIBEIRO, Leo Gilson. In: HILST, Hilda. Ficções ( 1977). SAUSSURE, Ferdinand. Cours de linguistique générale (1983). SAUSSURE, Ferdinand. Curso de lingüística geral. Trad. Antônio Chelini, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. (1969). http://www.mpbnet.com.br/musicos/legiao.urbana/letras/monte_castelo.htm